Estima-se que todos os anos sejam traficadas milhões de pessoas em todo o mundo, em troca de lucro, acarretando consigo um conjunto de causas e consequências problemáticas (desde o crime organizado transnacional à exploração sexual e laboral). Ainda assim, permanece como um fenómeno oculto e complexo de análise, pois implica diferentes ações, contextos e formas de violência e de exploração.Portugal não está imune a este fenómeno atentatório de Direitos Humano, sendo que as crianças são um dos grupos que apresentam maior vulnerabilidade à situação de tráfico humano. O Relatório do Observatório do Tráfico de Seres Humanos (OTSH) em 2018 contabilizou em Portugal um total 203 sinalizações (das quais, 30 menores) e um total de 49 vítimas confirmadas (das quais, 29 eram menores com idades entre os 8 e os 11 anos). No entanto sabemos que estes números, pela natureza do crime (de difícil deteção), são sub-representados e constituem apenas a ponta do icebergue. Por outro lado, desconhecemos ainda exatamente qual o impacto que a pandemia de covid-19 produziu (também) no tráfico de seres humanos – mas já sabemos da deslocalização para o espaço online, nem do impacto que as alterações climáticas e subsequentes movimentações forçadas terão.
Para fazer face a tudo isto é necessário conhecimento. Por um lado, conhecimento especializado que possa moldar políticas nacionais (e transnacionais) de repressão e proteção e, por outro lado, conhecimento para que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, incluindo crianças e jovens, possam reconhecer os sinais e os fatores de risco associados a este fenómenoe, não menos importante, conhecimento para que a comunidade em geral possa estar atenta e saber o que fazer aquando situações de suspeita.
Esse conhecimento, para além de outras fontes, pode vir também da auscultação dos e das sobreviventes. Aprender com eles e com elas para que a sua mensagem e o seu testemunho sejam disseminados, traduzindo esses ensinamentos em ações práticas preventivas e interventivas. Um melhor entendimento das circunstâncias, dos contextos, das táticas de aliciamento e dos sinais associados a situações de tráfico humano pode ajudar a consciencializar os e as mais jovens, ajudando a guiar as suas ações, de forma a mitigar o risco de se tornarem vítimas.
Acreditamos, por isso, que este tipo de conhecimento deve ser transmitido desde cedo, de uma forma personalizada, nos principais contextos de aprendizagem – escolas e famílias, numa linguagem simples, prática, fácil e clara, aos mais jovens, evitando assim que obtenham (des)informação e mitos de contextos como a internet e a televisão e, assim, ajudarmos a prevenir que mais menores se vejam privado e privadas do seu direito mais precioso: o direito a um desenvolvimento livre e seguro, num ambiente protegido. E isto é, afinal de contas, nada mais nada menos do que uma das nossas principais responsabilidades enquanto sociedade civil.
A área de Juventude da Cruz Vermelha Portuguesa encara com seriedade e empenho este compromisso e tem vindo a desenvolver, desde 2016, ações de sensibilização e de prevenção, com vista a educar os e as mais jovens para as situações de risco mais típicas, para os sinais de alerta e para as ações a tomar aquando situações de risco, em diferentes contextos (online e offline). Porque faz parte da nossa Missão “(…) prevenir e reparar o sofrimento e contribuir para a defesa da vida, da saúde e da dignidade humana (…)”. Centrarmo-nos na informação e educação dos e das mais jovens será uma abordagem concreta e eficaz na promoção desta dignidade humana e na prevenção do tráfico humano. Porque depois estes jovens podem eles próprios tornarem-se veículos e fontes de informação para amigos e familiares. Saber é proteger (a nós e a outros).Finalmente, não estamos sozinhos nesta Missão e existem uma série de outras organizações nacionais que estão na linha da frente de combate a este fenómeno atroz (desde a proteção de vítimas à repressão de criminosos/as).
Todos estes sistemas devem por isso cooperar no terreno e partilhar responsabilidades na promoção da Humanidade, enquadrados em políticas públicas (também elas) informadas e conscientes.














